Quinta-feira, Julho 13, 2006
!
Terça-feira, Junho 06, 2006
(Sem Título)
Diana de Moura
[Halifax, Canadá - email: diana000@ns.sympatico.ca]
Come da refeição
que eu preparei
cansada
depois de um dia de trabalho
mas não me digas a delícia
que era
Passeia-te
no chão que eu varri
juntamente com as ideias
minhas
Suja os cinzeiros
que o instinto já limpa
enquanto que a preguiça
refastelada ao teu lado
te adula
me provoca insolente
a minha passividade
Ouve da música
que instalo
no ar aprisionado
da casa
em Inverno que gela
as notas fugitivas
Mas não me digas
nada
e sobretudo
não me aumentes
o som
que me atormenta os ouvidos
vazios
Deita-te tardio
nos algodões brancos
que preparei,
já a pensar no sonho
Come regalado
dos meus lábios
avermelhados de febre
que não se debatem
Mas não me interrompas
o silêncio
Saboreia do meu corpo
estendido
Pisa do teu peito forte
o meu frágil
Que não te envia
portanto
o ritmado tambor
que abafo
Intoxica com o teu hálito
forte e acigarrado
o meu respirar
asfixiado
Ejacula-te
aonde quiseres
mas não me perguntes
se tive orgasmos
que eu entretanto vou espreitando
pelas brechas da azáfama
o sol que esqueço
que eu entretanto
vou espreitando
pelas frinchas do meu mover eterno
a neve que cai
agora enquanto
escrevo
[Halifax, Canadá - email: diana000@ns.sympatico.ca]
Come da refeição
que eu preparei
cansada
depois de um dia de trabalho
mas não me digas a delícia
que era
Passeia-te
no chão que eu varri
juntamente com as ideias
minhas
Suja os cinzeiros
que o instinto já limpa
enquanto que a preguiça
refastelada ao teu lado
te adula
me provoca insolente
a minha passividade
Ouve da músicaque instalo
no ar aprisionado
da casa
em Inverno que gela
as notas fugitivas
Mas não me digas
nada
e sobretudo
não me aumentes
o som
que me atormenta os ouvidos
vazios
Deita-te tardio
nos algodões brancos
que preparei,
já a pensar no sonho
Come regalado
dos meus lábios
avermelhados de febre
que não se debatem
Mas não me interrompas
o silêncio
Saboreia do meu corpo
estendido
Pisa do teu peito forte
o meu frágil
Que não te envia
portanto
o ritmado tambor
que abafo
Intoxica com o teu hálito
forte e acigarrado
o meu respirar
asfixiado
Ejacula-te
aonde quiseres
mas não me perguntes
se tive orgasmos
que eu entretanto vou espreitando
pelas brechas da azáfama
o sol que esqueço
que eu entretanto
vou espreitando
pelas frinchas do meu mover eterno
a neve que cai
agora enquanto
escrevo
Terça-feira, Maio 23, 2006
Urbanização

Fiama Hasse Pais Brandão
[in "As Fábulas"]
Tudo o que vivêramos
um dia fundiu-se com o que estava
a ser vivido.
Não na memória
mas no puro espaço
dos cinco sentidos.
Havíamos estado no mundo, raso,
um campo vazio de tojo seco.
Depois, alguém
urbanizou o vazio,
e havia casas e habitantes
sobre o tojo. E eu,
que estivera sempre presente,
vi a dupla configuração de um campo,
ou a sós em silêncio
ou narrando esse meu ver.
Quarta-feira, Maio 17, 2006
José
Carlos Drummond de Andrade
.
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?
Com a chave na mão quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?
.
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?
Com a chave na mão quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?
Terça-feira, Maio 16, 2006
Assim Eu Fosse o Seu Espelho

dedicado a "m@ r"
Anacreonte
[Grécia, séc. VI a V a.c.]
Assim eu fosse o seu espelho
para poder captar o branco do seu olhar!
Assim eu fosse o seu vestido,
envolvendo-a sempre!
Assim eu fosse a água que lava o seu corpo
e o bálsamo perfumado que vai ungi-la!
Assim eu fosse a faixa de linho que cinge os seus seios
ou o colar que acaricia o seu colo!
Assim eu fosse a sandália que ela pisa!

